quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Abraço da Vênus

Mudamos o curso do rio com nossas vozes, vozes doces, graves, serenas, intranquilas. Vozes que eram e são o que sempre serão: nossas


Marina Tavares* 

Não precisamos beber a beleza para que ela nos saia pelos poros. Tampouco, riscar seu traço negro por nossas pálpebras fatigadas. Não precisamos de seu vermelho, de sua fenda, de seu gingado que nos é ensinado desde antes de aprendermos a caminhar. Não precisamos de sua frágil malemolência, dos cabelos jogados, dos sorrisos forçados, dos ventres contraídos. Não precisamos de seus bicos finos, sua voz mansa, suas meias-calças e verdades. Não precisamos imitar a beleza, como se em nós ela já não habitasse, como se não fosse somente em nós que ela existisse, e não em nossa reprodução, em nossa fotografia, em nosso signo. Estávamos em frente ao forno quente – a voz inaudível. Olhávamos para baixo com nossos vestidos recatados.
Estávamos na louçaria areada, nas gravidezes, nos almoços de domingo. Erguemos os olhos: as páginas gritavam, erguemos os olhos e gritavam os outdoors, e gritavam as perfumarias e as academias com seus espelhos. Trancaram-nos em nossas vestes e hoje nos despem vorazmente. Apertam nossos pés, nossas cinturas e anseios. Sufocam-nos o corpo em outro corpo pré-moldado; outro corpo feito sem carne, sem linfa ou suor; outro corpo feito de imagem que nos precede, de imagem que nos entorpece as vontades com sua falsa liberdade.
Mudamos o curso do rio com nossas vozes, vozes doces, graves, serenas, intranquilas. Vozes que eram e são o que sempre serão: nossas. Fizemo-nos ouvir. Hoje, gritam nosso grito em nossos ouvidos. Sintetizam nossas escolhas em obrigação, sintetizam nossas singularidades em conduta. Vendemnos independência, ao passo que consumimos a nossa sujeição.
Não nos contemos na sucintez de seus slogans, nem em predicados cochichados nas calçadas. Não é nosso o caminhar moribundo sob holofotes – a dentadura irretocável, a máscara de cal e poeira, os gestos afetados ou contidos. Nosso pulso pulsa, nosso peito arde. O pó do mármore amputado não é a gota do sangue que nos cora. Somos o que sempre soubemos, o que não nos carece ensinamentos – um pensar que se acende, um querer que se afaga, uma estrada que somente a cada uma de nós se revela, enquanto a todas nos une o fio invisível da existência, a paragem efêmera da vida: o escolhimento.
*Marina Tavares é estudante de Letras

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